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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Rabinos!

O ti Joaquim e os seus dois irmãos quando eram novos, eram muito rabinos, e
aproveitavam todo o tempo livre para se divertirem de qualquer maneira.
Certo dia, de manhã, ao receberem a visita de uma das suas primas, não perderam tempo e vá de lhe pregar uma partida.
Disseram-lhe que a mãe estava doente, e que por isso não podia tirar o leite às cabras, e pediram-lhe que o fizesse.
Ora, junto com as três cabrinhas estava também um chibo.
Inocente, inexperiente, coitadinha dela, começou por uma e tudo corria com normalidade, mas quando chegou ao quarto animal, este começou a espernear e a berrar com toda a goela.
Ela porém já muito chateada disse:
- Nem mé nem meio mé! Tens que dar leite como as demais!
Os rabinos, espreitando pela fresta do portão, riam-se que nem uns perdidos

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A faca de ponta - texto integral

(Para quem ainda não leu o texto integral, resolvi recolocá-lo.)

Dias antes levara uma surra do pai, porque tinha deixado assaltar a taberna.
Naquele dia, António ausentara-se do local de trabalho para ir ver uma rede que montara nessa manhã na Vala do Sequeiro, junto à linha do comboio, na expectativa de apanhar alguma enguia ou papa-cavalo. Uma das suas freguesas do mata-bicho, que estava a banhos, aproveitou a sua ausência, e, tendo espreitado onde ele tinha guardado a chave da taberna, foi-lhe à gaveta do dinheiro.
Pelas festas dos Santos Populares e durante toda a época balnear, o ti Joaquim mantinha em funcionamento uma das suas tabernas sazonais nas termas, aquela que lhe dava mais lucro.
O António, o seu filho mais novo fora o escolhido para a sua exploração, encargo que gostava muito de ter porque passava grande parte do tempo a ouvir no rádio aquilo que mais gostava – as canções daquele tempo. Ouvia e cantava em simultâneo as cantigas. Depois passava toda a letra para folhas de papel pardo.
Devido à sua voz bem timbrada, até aspirou um dia a ser cantor profissional. Tony chegou mesmo a ser vocalista do Sol Dourado e foi a uma audição à Emissora Nacional.
Agora, tinha-se esquecido de um papel em cima da mesa da cozinha da residência familiar. A ti Maria, curiosa, pegou no papel, abriu-o e leu:

“Eu hei-de morrer de um tiro,
Ou duma faca de ponta.
Morro hoje ou amanhã,
Com isso já faço conta”…

Ai!...
Ia desmaiando após lidas aquelas palavras.
Com as forças quebradas, aflita, correu a chamar pelo homem que, nesse dia andava a cultivar o serrado atrás da casa. E entregando-lhe o papel exclamou:
- Olha o que tu fizeste ao nosso Tóino! Vai lá depressa ver o que é que se passa com ele! A esta hora atirou-se para debaixo do comboio ou para dentro de alguma vala!
O ti Joaquim pegou na sua bicicleta e foi a toda a pressa até à taberna.
O Tóino dormia a sesta bem descansado na sua improvisada cama de bunho seco, porque nessa tarde não havia muito que fazer.
Afinal, era apenas o refrão duma cantiga!

Os tempos mudaram, mas hoje a cantiga é a mesma.

Estamos tramados!
Temos a faca encostada à barriga…
Eu, pelo menos, tenho-a sempre apontada a mim, vinda de várias direcções.
Estou sujeito a assaltos, mas o maior assalto vem daqueles que me deviam proteger! E então digo:

Eu hei-de morrer um dia
Porque imortal não sou
Portanto ficai sabendo
Ao lerem o meu testamento
Que foi o governo que me matou!

___________________
Adenda: Prémio!

Award, created by the Uruguayan
Obrigado ao Daniel do blog Com Imagens
que o atribuiu ao Cabo das Tormentas.

Aproveito para oferecer aos meus comentadores habituais, este "anjinho da guarda"dos blogues.
Aqui ficam as regras (que quebrei):
1. Quem receber o prémio, tem de escolher cinco blogues que considere criativos, interessantes e que contribuam para uma melhor blogosfera e que goste, claro !
2. Deve incluir no post, o nome dos cinco bloggers, nome dos respectivos blogues e respectivos links dos blogues nomeados.
3. Quem o recebe deve mostrar o prémio bem como o nome do autor e link de quem lho deu.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Aldeia (des)encantada


(Miniatura do ti Joaquim)

Na aldeia, que mais parecia estar assombrada, algo de anormal acontecia.
Depois do casamento, as noivas adoeciam gravemente com doença desconhecida.
O médico era chamado, sempre à última da hora, quando já não havia nada a fazer.

Aconteceu que um dia um jovem recém-casado teve que o chamar porque a sua noiva fora acometida da misteriosa doença. O médico depois de a examinar disse ao marido que não havia nada a fazer, que se preparasse para passar a viúvo e que não duraria mais que quarenta e oito horas. Disse-lhe ainda que passado esse tempo fosse ao seu consultório para que lhe passasse a certidão. O jovem não se conformou, e pensou para consigo “ora eu há pouco tempo casado com uma bela mulher, é um desperdício ela partir sem que eu… nah, tem que haver uma solução!”
Deitou-se junto dela, imóvel, preocupado com os seus gemidos e lamentos.

Toda aquela santa noite, apesar da noiva doente, e porque eles se gostavam muito, foi de grande ternura, muito amor, muita paixão… Ela espreguiçando-se a meio da madrugada mandou o marido ir buscar um chá (chá de marcela, muito amargo, que mais parecia veneno) e bebeu-o em poucos goles, com muito gosto, e cheia de vontade de viver……

O médico estranhou a demora do jovem a chamá-lo e deixou que passasse mais algum tempo. Como não aparecia pôs-se ele a caminho da casa do casalinho. Pelo caminho ia perguntando se tinha morrido alguém por ali na aldeia. Respondiam-lhe que não. Bateu à porta e apareceu-lhe o rapaz todo risonho e diz-lhe, sem que o médico lhe perguntasse, que a sua noiva estava muito melhor.
- Chamaram outro médico? - Perguntou.

- Não! - Muito envergonhado o rapaz confessou-lhe o que tinha feito naquela noite.
Por fim o médico exclamou:
- Sim senhor! Quantas eu tenho deixado morrer! Se antes soubesse, teria receitado essa medicina.

Depois de ouvida esta história do ti Joaquim, pode-se chegar à seguinte conclusão, entre outras:
Naqueles tempos segundo as narrativas deste mestre, os noivos nem sequer dormiam um com o outro na noite de núpcias (as mães não deixavam), ou se o faziam, não pensavam em mais nada do que fazer projectos para o dia seguinte, e para o futuro. Da lua-de-mel não sabiam o que era ou simplesmente não existia nas aldeias. Passavam toda a noite a falar como iriam arranjar dinheiro para comprar uma junta de vacas, como conseguir uma grande adega de vinho, marcar os dias para cultivarem as terras, enfim a festa no lugar de continuar, terminava ali naquela noite.

Portanto é de salientar que, as noivas sendo mais sensíveis e mais vulneráveis que os noivos, adoeciam. Faltava-lhes, logo no início, o amor, elemento principal para a vida a dois.
Mas o ti Joaquim não foi nas couves! Deixou o trabalho para segundo plano!

quinta-feira, 17 de abril de 2008

A caldeirada das batatas

Depois de tantos anos à luz do pitromax e do candeeiro a petróleo e outros, chegou a tão esperada luz eléctrica.
O ti Joaquim pensou logo em comprar uma televisão, para que os seus clientes pudessem ver alguns programas e alguns filmes e, daí, vir a vender mais os seus produtos.
A rapaziada passou a frequentar mais vezes a casa e, por vezes até se esqueciam das horas, ficando até tarde na jogatana. E às vezes não satisfeitos, os mais novos, quando o ti Joaquim dizia que eram horas de fechar, levavam uma grade de cerveja para a rua e iam jogar a bola para a estrada, até altas horas do noite. O vizinho mais próximo é que não estava pelos ajustes, pois sempre que de noite queria dormir, era inquietado pelo barulho que estes faziam, e pensou apresentar queixa.
Numa noite a guarda republicana bateu-lhe à porta, que estava fechada, pois já passava da hora de encerramento do estabelecimento. Num ápice tiraram todas as bebidas que estavam na mesa, cerveja, copos, e só depois é que foi aberta a porta.
Como tinha sido um acuso, o ti Joaquim teria que ira tribunal. Mas teve algum tempo para pensá-la.
Em tribunal todos iriam dizer a mesma coisa. Que andaram todos a arrancar batatas nesse dia para o ti Joaquim e que este à noite lhes ofereceu uma caldeirada de batatas como compensação, estando todos ali a cear até tarde por conta da casa.
Presentes a tribunal, todos responderam da mesma forma, e o doutor juiz dirigindo-se ao mais velho de entre eles, coxo e um pouco surdo, perguntou: “Então as batatas eram boas?”. “Sim, Sr. Doutor Juiz! Mas o bacalhau era muito melhor! Era cá cada posta!”.
“Pergunto se as batatas que arrancaram eram boas!”. “Sim eram boas, era cá cada uma que até pareciam duas”. E assim se safaram da transgressão. Foram mandados embora, sendo o ti Joaquim absolvido.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Incapacidades temporárias

Depois de se reformar, o ti Joaquim costumava ir até à fábrica do filho mais velho, a quem passara o ofício de marceneiro, para ainda fazer uns pequenos biscates e observar o modo de trabalho dos empregados. Tinha uma boa relação com eles. Estes gostavam de o arreliar e de lhe ouvir as histórias.
O Ti Joaquim dizia-lhes sempre: “Ó rapazes, vocês agora nem sabem o que é trabalhar. No meu tempo fazia-se tudo à mão, isso é que era obra de artista! Agora, vocês com essas máquinas todas!....”
Conta o ti Joaquim que, lá à fábrica, costumam recorrer pessoas a pedir trabalho.
Certa vez, na época alta, o filho do ti Joaquim aceitou o pedido de um homem, ainda novo. Expondo-lhe todas as condições de trabalho, disse-lhe que podia começar já no dia seguinte. “Começa às oito horas da manhã e termina às cinco da tarde.”
O novo empregado depois, agradecido e um tanto envergonhado, contou-lhe que tinha sido caçador e que lhe acontecera um acidente que lhe causara a perda dos testículos.
O patrão condoeu-se com o sucedido e disse-lhe então que, nesse caso, viesse só às nove que ainda vinha a tempo. Este, admirado, perguntou-lhe porquê, ao que o patrão respondeu “Pode vir só às nove, porque os meus empregados das oito às nove não fazem mais nada se não coçar os tomates”.

terça-feira, 11 de março de 2008

Marmelada...

Durante a vida de lojista do ti Joaquim, as pessoas ao redor aviavam-se na sua loja, comprando o necessário para o dia-a-dia - cloreto, fósforos, petróleo, colorau - e era ali que os homens se juntavam aos domingos para umas cartadas e beberem uns copos.
Perguntei-lhe se fora um comerciante recto, honesto, ao que me respondeu que sim.
De vez em quando lá cometia uma ou outra falta, mas sem gravidade, não devia, mas a tentação!...
"Nunca fui como o de lá de baixo, o Alberto" (um seu concorrente). "Quando alguém lhe comprava bacalhau, cortava-o na guilhotina, mas com a gaveta meio aberta, e fazia deslizar, sem que o freguês visse, uma das postas do meio para dentro da gaveta".
“Arranjava sempre para uma refeição... Isso nunca fiz!"
"Cheguei a fazer uma outra coisa, uma pequena maroteira":
Havia a ti Angelina, que quando vinha à loja, gostava sempre de estender o seu braço e, sem que eu visse, tirava um bocado de marmelada para depois em cima beber o seu copito da aguardente. Mas uma vez quilhei-a!
Arranjei um tabuleiro igual ao da marmelada e meti-lhe dentro massa consistente*. Ela vinha sempre à mesma hora. Quando cheguei ao balcão estava ela a lamber os beiços. Pediu o habitual, pagou e foi -se embora. Não se desmanchou, mas saiu com a garganta bem untada.
De regresso a casa ia sempre a fazer “art ffff arrrtefff arretefffe".
Alguém ao vê-la assim tão atrapalhada e sufocada perguntou-lhe, se estava mal disposta, ou se precisava de ajuda, ao que esta lhe respondeu:
- Não queiras tu lá saber! O ti Joaquim tem agora lá na loja uma marmelada que sabe mesmo à... arrrtfe... (Massa Para os Eixos dos Carros de Bois)

Ia-me escangalhando a rir!...

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

"Não deixam governar vida a ninguém"

Diz que comprou e vendeu muitas coisas velhas.
Chegou a ir para os lados da Sertã, correr aquelas aldeias perdidas no meio das serras.
Saía de madrugada com um ajudante e regressava à noite com o carro carregado de tudo quanto era velho. Comprava por baixo custo, não sabendo os mais velhos, o valor dos objectos de que se desfaziam, confiavam nele como incapaz de enganar quem quer que fosse.
Comprava relógios de coluna, de capela e de bolso, alambiques, pratos dos “aranhões e cavalinho” notas e moedas, e diz que caso não os tivesse vendido, não teria lugar para expor tanta coisa.
Mostrou-me uma grande panela de ferro de três pernas feitas de patacos fundidos que não tinham grande valor, e, arranjando-lhe um fundo falso, serviu de cofre durante muitos anos.
Mas o negócio passou a correr mal, os mais novos começaram a ter a noção do valor dos objectos, e não deixavam que os seus familiares os vendessem.
Posto isto, passou a comprar “vinhos podres”.
-Aí é que eu me enchi! Disse ele. Carregava uma camioneta de vinho duas vezes por semana, algum ainda se podia beber, mas como tinha qualquer defeito, era todo para queimar.
Até que um dia os fiscais foram à fábrica e descobrindo muita aguardente sem ser manifestada, trataram imediatamente de encerrar a fábrica.
-“Já não deixam governar a vida a ninguém” – Interrompeu a Ti Maria, muito zangada –-Se tomassem mas era conta dos ladrões que andam p’raí a roubar!
Daqui em diante o Ti Joaquim passou a dedicar-se à sua loja e mercearia, porque entretanto os anos começaram a pesar…

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Enguias ( 2)

Certo dia o ti Joaquim e o irmão foram convidados para uma caldeirada de enguias na adega do Zé do burro.
Reunidos, os seca-adegas, numa grande farra entre copos e galhofas, aparece-lhes a dona da casa. Que se sentassem à mesa, que já estava posta.
Trouxe uma grande panela de sopa de grão e começou a servi-los.
Olharam uns para os outros. Ficaram admirados, pois não contavam com aquilo. Houve mesmo alguém que comentou entre dentes ”Então, vim eu aqui para comer grão a esta hora?”

Começaram a comer e, o irmão, comendo só um pouco dizia baixinho para o Joaquim, dando-lhe uma cotovelada “Não sejas parvo, espera pelas enguias… não comas, se não ficas sem barriga para elas!”
O ti Joaquim, estando com fome e porque a sopa também tinha um pouco de carne e chouriço, ele que desde sempre fora mais amigo de carne do que de peixe, até dizia muitas vezes que o “peixe não puxa carroça”, comia e chegou a repetir, “Ai não que não como... não comas tu, não!”
A dona da casa insistia. “Comam mais, façam de conta que estão em vossas casas! Ou não gostam do comer?!”
“A sopa está boa” diziam uns. “Para mim já chega” diziam outros!
Por fim, a ti Ana retirou a panela.
O dono da casa, o Zé do burro, levantou-se e disse:
- Vocês desculpem, mas hoje não há enguias!

Grande silêncio se fez naquele momento!

“Esta manhã quando fui para levantar as redes, fui dar com elas todas rotas, não sei se foram as doninhas ou se foi algum malandro que fez aquele trabalho. Mas bebam mais um copo…”
Beberam mais um copo e saíram, porque a ti Ana tinha dito ao marido “Vamos para a cama que esta gente quer-se ir embora!”

O ti Joaquim foi para casa de barriga cheia, e o irmão… “Ah malandro, desta vez chegaste para mim!”

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Enguias

As grandes chuvadas de inverno invadiam os campos do arroz, as valas enchiam-se de água barrenta, e os pequenos rios convidavam os mais experientes à pesca das enguias.
Peixe muito cobiçado pelo seu ensopado, ou fritas como petisco, ou numa boa caldeirada.
De tarde colocavam as narças submersas nas valas ou nos rios, de modo a que ninguém visse o local exacto, porque havia sempre alguém à espreita para roubá-las durante a noite, e de manhã iam levantá-las com o saco cheio do delicioso peixe. Outros utilizando a sertela, uma técnica mais rudimentar, sempre conseguiam pescar algumas.
Quando alguém tinha a sorte de apanhar enguias em excesso, convidava logo os amigos mais próximos e, juntos, cada qual contribuindo com o seu jeito de cozinheiro, faziam à noite uma bela caldeirada.
O local escolhido para o banquete era sempre a adega, um local espaçoso, onde podiam ter todos os tipos de conversa, longe das crianças e das mulheres.
O grande tacho de cobre era colocado ao centro da mesa, com as batatas e cebolas às rodelas, enguias cortadas aos bocados a nadar naquele delicioso caldo amarelo, onde muitos gostavam de molhar o bocado de pão para provar, antes da refeição começar, para fazerem peito a um copo de tinto, tirado ali ao lado do tonel pelo espicho.
O Ti Joaquim nunca fora moço de ir às enguias, mas nem por isso deixou de comer algumas caldeiradas.
Quando sonhava que alguém nas redondezas iria dar uma caldeirada aos amigos, combinava com o irmão.
- Olha, hoje temos caldeirada!
À hora certa, o Ti Joaquim batia ao portão da adega e, perguntava ao dono da casa pelo seu irmão. Este respondia-lhe que o não tinha visto, que ali não se encontrava. Mas já que ali estava, convidava-o a entrar para comer umas enguias. Ao que ele se fazia um tanto esquisito, mas lá aceitava. Sentado à mesa, daí a alguns minutos aparecia o irmão a perguntar por ele. O dono da casa para não criar ali uma desfeita convidava-o a entrar e fazer parte do grupo…

“Onde se senta um português, sentam-se dois ou três”.

(continua)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

“A culpa é do sistema”

“Sistema lento que não reage em tempo útil à necessidades de cada um”…

…"Quanto maior a demora, mais o cliente tem de pagar ao advogado que o representa”…


Um tema que preocupa actualmente o Sr. Presidente da República... e não só...

Pois bem…. Se fossem resolvidos parte dos problemas (os de menor gravidade), como este, talvez não houvesse tantos processos em lista de espera:

O ti Joaquim foi um dia à serração com uma carrada de toros de pinho para fazer as tábuas para a sua lida do dia-a-dia.
De repente aparece-lhe um homem com uma patrulha da GNR "Você não pode serrar essa madeira! essas falcas são minhas!" O ti Joaquim espantado com tal aparato, mas convicto da sua inocência, responde-lhe "Deves estar muito enganado! Por quem me tomas? Estás-te a armar aos cágados ou quê?"
"Pois bem vamos tirar as coisas a limpo!" Acrescentou.
Pediu ao serrador que cortasse um palmo da parte mais grossa da falca, do lado do pé, e carregando-a às costas pediu que o seguissem até ao pinhal, que ficava à distância de meia légua.
Chegados ao local, assentou o pedaço de madeira no cepo a que antes o pinheiro pertencera e ajustando-o como peça de um puzzle, concluiu que o pinheiro esteve ali antes.
Perguntando os guardas ao queixoso se aquele pinhal lhe pertencia, este disse que não. Desde logo souberam que, de facto, não estavam perante um roubo, mas sim um falso testemunho, uma esperteza saloia!
Os guardas elogiaram o ti Joaquim pela acção imediata que teve e perguntando-lhe o que pretendia fazer a partir dali, este pensando bem, e para que servisse de lição ao queixoso, apenas exigiu que este lhe pagasse o trabalho de serrar a madeira.
O homem não teve outro remédio se não concordar, para que a coisa não se complicasse, terminando assim a contenda.

E assim se foi livrando até hoje das malhas da justiça!

sábado, 26 de janeiro de 2008

Médico ou cangalheiro?

O pai do ti Joaquim, cabo cantoneiro, porque eram muitas bocas em casa a comer, resolveu levá-lo para trabalhar com ele. Arranjou-lhe uma farda e atribuiu-lhe um cantão, que ele zelava com todo o empenho. O chefe, quando passava por aqueles lados, ia vendo aquele trabalho tão bem feito que quis conhecer o seu autor. O pai certo dia apresentou-lho, e à pergunta “que idade tens, meu rapaz?” respondeu “quinze anos”! Disse-lhe que não podia continuar naquele cargo porque era ainda muito novo e não era permitido. Com medo de represálias dos seus superiores, o pai mandou-o embora para casa. Cabisbaixo, saiu.

Sempre que o pai fazia as sementeiras, os filhos tinham que o acompanhar nessas tarefas trabalhando todos ao mesmo ritmo, principalmente na cava. O ti Joaquim, o mais velho, sempre que o irmão mais novo se deixava ficar para trás dizia-lhe “trabalha langão”! Mas este, de tanto ouvir aquela expressão, pegando na enxada atirou-a bem para longe dizendo “Vocês um dia ainda me hão-de tirar o chapéu!”.
Seu dito, seu feito. Começou a trabalhar com um médico avençado e com o tempo adquiriu conhecimentos de enfermagem e medicina que lhe permitiram começar a passar receitas aos doentes. Aprendeu a fazer hóstias com farinha de trigo e algumas gotas de quinino, que os doentes tomavam para todas as enfermidades, nomeadamente para as sezões.
As autoridades, logo que tiveram conhecimento da acção deste doutor, chamaram o médico responsável à atenção de que poderia vir a ser detido.
O irmão do ti Joaquim teve que fugir para a Venezuela para não ir parar à cadeia, e por lá ficou a maior parte da sua vida.

O ti Joaquim, exercendo já a profissão de carpinteiro, sempre que morria alguém na freguesia era ele que fazia os caixões e os enterros com a sua carreta.
A primeira coisa a fazer era ir ao pinhal e cortar o pinheiro mais carunchoso, serrá-lo em tábuas que depois seriam forradas com tecido, ficando o caixão pronto em poucas horas.

Concluo: Vão-se os médicos, ficam os cangalheiros!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Carpinteiro em construção

Manejar o martelo e o formão aprendera, mas de todo desconhecia a sua grande missão.
Não sabia que uma tábua valia mais do que um pão. De facto como podia, se era um carpinteiro em construção!

Aqui uma casa emadeirava, com tábuas e com suor, acolá um barracão. Assim não fosse ele comer serradura crua à mão. Sem os desperdícios da grosa e da pua teria crescido em vão. Assim, bem exerceu um dia essa bela profissão.

Miniaturas de charretes, carros de bois e alfaias, feitos de bocados de tábua crua. Manufacturados com os utensílios guardados na antiga mala sua.

Um actor de televisão ofereceu-lhe muito dinheiro pela colecção. Mas ele logo disse :
- Não!
Não, porque cada filho herdará um dia uma charrete, e um carro de bois. Para que não esqueçam, pois, as suas mãos de trabalho e carinho que souberam ganhar o pão.
A Deus muito agradece, não fora em tempos sacristão, por todos os anos vividos em constante evolução.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Medicinas alternativas

Era uma vez um homem, que recém-chegado de França, ao entrar à porta de casa se surpreendeu com o médico. Este tinha sido chamado para curar a dor de barriga da sua mulher, que vinha sendo habitual, e que teimava em não desaparecer. O médico virou-se para o homem e disse "A sua mulher está mesmo mal, portanto tem que ser curada quanto antes. Por isso vou-lhe receitar uma boa canja de galo e uns emplastros de limos e sargaços, misturados com papas de linhaça". O homem, sem perda de tempo, e porque queria a mulher sem qualquer maladia, pôs-se a caminho (a pé, porque naquele tempo os automóveis eram só para os afortunados) para chegar de manhã cedo à praia e apanhar os limos que saíam nas redes dos pescadores. Passada uma hora cruza-se com o moleiro que lhe perguntou para onde ia. O homem contou-lhe tudo o que se estava a passar. "Não é preciso tanto trabalho" diz-lhe o moleiro, conhecedor também de certas medicinas alternativas, "Eu mesmo consigo arranjar cura para a tua mulher! Apenas tens que fazer aquilo que eu te mandar! Em paga apenas quero seis sacas de trigo! Salta cá para cima da carroça enrola-te nessa esteira e pega nesse bordão!"
Prosseguem a viagem. Em chegando o moleiro bate à porta. Abre a mulher e lá está dentro o médico! Porque já era tarde, pediu que lhe desse cômado. A mulher ofereceu-lhe um local para passar a noite, e convidou-o a participar também na ceia, composta por uma boa canja e uma grande travessa de galo com arroz pardo, que estavam prestes a devorar. O bom do moleiro entrando com a "esteira" enrolada, recostou-a atrás da porta na cozinha. Sentados à mesa, o moleiro disse que para animar o momento cada qual teria que dizer uns versos. A mulher começa "O meu homem foi ao mar, limos e sargaços foi buscar, quer os traga quer não traga, cá tenho outro no seu lugar e com enxúndia vou experimentar".
E vai o médico "Nesta casa só há galos. Galos e galeirões, quem me dera agora ester-te entre mantas e colchões."
Por último o moleiro diz "Ó seu homem dum estardalho, comece desde já a conhecer a razão, carregue-me a carroça de trigo, que está na ocasião. Saia já desse esteiralho e pegue nesse bordão". O marido, ouvindo isto, desenrolou-se da esteira com o bordão, preparado para a jantarada!
Deu o arroz ao médico, que depois abalou porta fora. A mulher comeu da canja, indo de seguida para a cama. A dor de barriga tinha passado...
O homem e o moleiro comeram, de seguida, refastelados... o galo!

"estardalho": despresível-bisbilhoteira-traquinas
"esteiralho" : esteira grande com muito uso "

[Caso tenha ferido susceptibilidades com este conto do Ti Joaquim, desde já as minhas desculpas.]

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

O Flauzino e os ovos

O ti Joaquim diz-me que durante a sua vida tem apanhado muito peide-meste que fez dele um homem.

Por agora vou apenas contar uma passagem por ele descrita.
Havia um homem de nome Flauzino, que era um tanto maroto. Gostava de visitar as tabernas, comer umas buxas e beber uns copitos.
Entrando numa delas e aproveitando a ausência do taberneiro, foi ao tabuleiro dos ovos e tirou quatro. Saiu, e mamou-os a caminho de outra taberna, onde foi beber o seu copo habitual.
O taberneiro apercebendo-se da falta dos ovos, facilmente soube do autor do roubo. Levou-o à justiça com a melhor defesa que existia então na vila.
Flauzino, pobre como era pode apenas contratar como advogado de defesa, o diabo, que lhe apareceu no seu desespero.
A defesa do Taberneiro exigia uma indemnização pelo acto grave, porque os quatro ovos poderiam uma vez chocados, dar origem a quatro pintos; estes pintos far-se-iam galos e galinhas estas galinhas chocas punham mais ovos que depois… davam origem a inúmeras galinhas, ovos… e por aí fora... podiam dar até um aviário!
No dia da audiência, estando o tribunal reunido, a defesa de Flauzino, atrasado uma hora, entrou na sala como um trovão, ou não fosse ele o diabo! Todos se assustaram!
O Sr. Dr. Juiz perguntou-lhe "Só agora? Que justificação nos dá por tamanho atraso?"
- Saiba Vª. Ex.ª. Sr. Doutor Juiz, que na hora em que estava para vir para este tribunal lembrei-me que ainda tinha que cozer um alqueire de favas, para os meus criados irem semear amanhã!
O defesa do taberneiro perguntou "Então favas cozidas podem dar favas?!!! "

Sabem a resposta do diabo, defesa do Flauzino?
E o resultado desta contenda?

domingo, 30 de dezembro de 2007

Velhice assim?!...Tudo bem!...

…. Regozijam-se por serem o casal mais velho das redondezas.
Têm sempre um fragmento de história da vida para contar.
São um casal feliz: o ti Joaquim de 94 e a ti Maria de 90, sendo esta ainda muito activa para a sua idade. Diz que ainda gosta de passar parte do tempo com a enxada na mão, semeia tudo como qualquer um agricultor para a sua subsistência,: batatas, couves os alfobres , cebolas, tudo…. diz que é para fazer massagens ao corpo. Levanta-se cedo todos os dias para dar de comer à criação, gosta de arremedar sempre o galo e as galinhas. As poucas queixas se ouvem esporadicamente são "Doem-me tanto os meus rinzes hoje", ou então quando por vezes não se entende com algum familiar, remata logo com esta”Deus queira que cheguem à minha idade e que façam o que eu faço"! Mas não!... Hoje em dia só andam encharcados em remédio, só comem diogutes e pudins... …está bom é pás farmácias!
Coze a broa todas as semanas e oferece uma a cada filho.
Na praia comporta-se como uma autêntica criança: gosta de vestir o seu fato de banho, e mergulhar a cabeça nas ondas pequenas. Canta, grita, ri, põe toda a gente a olhar para ela. Praia não é só no Verão, porque em pleno Inverno, com um belo dia de sol, não pára de dizer: - Que rico banho eu ia tomar à praia!... eh eh eh.. mas não tenho ninguém que me lá leve!
…Nas festas ou romarias, eram sempre os dois que abriam o baile. Hoje porém como o ti Joaquim não pode por causa das dores dos pés, ela agarra-se ao que estiver mais perto para o pé de dança, ficando os presentes boquiabertos….