(Para quem ainda não leu o texto integral, resolvi recolocá-lo.)Dias antes levara uma surra do pai, porque tinha deixado assaltar a taberna.
Naquele dia, António ausentara-se do local de trabalho para ir ver uma rede que montara nessa manhã na Vala do Sequeiro, junto à linha do comboio, na expectativa de apanhar alguma enguia ou papa-cavalo. Uma das suas freguesas do mata-bicho, que estava a banhos, aproveitou a sua ausência, e, tendo espreitado onde ele tinha guardado a chave da taberna, foi-lhe à gaveta do dinheiro.
Pelas festas dos Santos Populares e durante toda a época balnear, o ti Joaquim mantinha em funcionamento uma das suas tabernas sazonais nas termas, aquela que lhe dava mais lucro.
O António, o seu filho mais novo fora o escolhido para a sua exploração, encargo que gostava muito de ter porque passava grande parte do tempo a ouvir no rádio aquilo que mais gostava – as canções daquele tempo. Ouvia e cantava em simultâneo as cantigas. Depois passava toda a letra para folhas de papel pardo.
Devido à sua voz bem timbrada, até aspirou um dia a ser cantor profissional. Tony chegou mesmo a ser vocalista do Sol Dourado e foi a uma audição à Emissora Nacional.
Agora, tinha-se esquecido de um papel em cima da mesa da cozinha da residência familiar. A ti Maria, curiosa, pegou no papel, abriu-o e leu:
“Eu hei-de morrer de um tiro,Ou duma faca de ponta.Morro hoje ou amanhã,Com isso já faço conta”…Ai!...
Ia desmaiando após lidas aquelas palavras.
Com as forças quebradas, aflita, correu a chamar pelo homem que, nesse dia andava a cultivar o serrado atrás da casa. E entregando-lhe o papel exclamou:
- Olha o que tu fizeste ao nosso Tóino! Vai lá depressa ver o que é que se passa com ele! A esta hora atirou-se para debaixo do comboio ou para dentro de alguma vala!
O ti Joaquim pegou na sua bicicleta e foi a toda a pressa até à taberna.
O Tóino dormia a sesta bem descansado na sua improvisada cama de bunho seco, porque nessa tarde não havia muito que fazer.
Afinal, era apenas o refrão duma cantiga!
Os tempos mudaram, mas hoje a cantiga é a mesma.Estamos tramados!Temos a faca encostada à barriga…Eu, pelo menos, tenho-a sempre apontada a mim, vinda de várias direcções.Estou sujeito a assaltos, mas o maior assalto vem daqueles que me deviam proteger! E então digo:Eu hei-de morrer um diaPorque imortal não souPortanto ficai sabendoAo lerem o meu testamentoQue foi o governo que me matou!___________________
Adenda: Prémio!
Award, created by the Uruguayan Obrigado ao
Daniel do blog
Com Imagensque o atribuiu ao Cabo das Tormentas.
Aproveito para
oferecer aos meus comentadores habituais, este "anjinho da guarda"dos blogues.
Aqui ficam as regras (que quebrei):
1. Quem receber o prémio, tem de escolher cinco blogues que considere criativos, interessantes e que contribuam para uma melhor blogosfera e que goste, claro !
2. Deve incluir no post, o nome dos cinco bloggers, nome dos respectivos blogues e respectivos links dos blogues nomeados.
3. Quem o recebe deve mostrar o prémio bem como o nome do
autor e
link de quem lho deu.