sábado, 17 de outubro de 2009

Pó de Palha ou Cinzas e Co2

Bons tempos os de criança!
Acompanhávamos atentos todos os momentos que os adultos faziam ao trabalhar no arroz.
Desde o fazer as carradas nos carros de bois, o transporte e a descarga nas grandes eiras em dias de soalheiro.
O arroz era debulhado com os próprios animais, que andando em circulo horas a fio, pisavam até que o grão se desprendia totalmente da planta, descansando apenas na altura de virar o calcadoiro.
Faziam grandes médoas de palha, nas quais nos escondíamos quando brincávamos ao esconde-esconde. Os problemas surgiam passados alguns minutos: uma intensa comichão provocada pela palha, a que chamávamos (Pó d'Arroz). Muito nos ríamos quando as cachopas se coçavam……

Após a retirada do arroz do campo, já podíamos ir ao peixe nas valas, pois já não calcávamos o arroz, não fazíamos estragos. Utilizando poceiros ou crivos junto às marachas, conseguíamos apanhar uns robacos, ou até mesmo umas camaritas, com os quais, misturados com uns ovos que as nossa mães nos davam, fazíamos um excelente petisco para a merenda.
Foram tempos felizes.
Nos dias mais quentes de verão, as valas serviam de piscina para nos refrescarmos. Caminhando ao longo da vala com os pés no lodo, com um pouco de sorte podíamos encontrar um tipo de bivalve preto de tamanho grande, que nós oferecíamos aos adultos, porque só eles os sabiam cozinhar. Ficavam muito agradecidos. Pena é que essa espécie hoje não exista.
Fora da época do defeso poder-se-á ver nesses locais alguns pescadores à cana, que nas águas turvas, poluídas pela monda química, apanham algumas carpas e, na maioria, os indesejados lagostins, praga que invadiu nos últimos anos os arrozais. Penso que é apenas por desporto e que o pescado será para dar ao gato…




Por vezes os lavradores tinham que usar a zorra (na foto, o que está por baixo da junta de bois), para tirarem o arroz do campo, quando este já estava encharcado pelas chuvas de Setembro, ou se o terreno era mais olheiro.
Hoje, poucos aproveitam a palha, porque já não há gado por estas aldeias, a não ser que a utilizem, como eu,
para fazer a cama

das chocadeiras e poedeiras.

5 comentários:

São disse...

As fotos estão muito bonitas.

E o texto muito interessante, mas a minha comichão era das eiras de trigo.

Bom domingo.

xistosa - (josé torres) disse...

Cenas bucólicas que ficaram gravadas, da nossa meninice.
Arroz, só não gosto dele cru.
Lagostins, venham muitos, que eu cozinho-os à minha maneira e marcham ao som duns glupes-glupes de cerveja a escorregar ...
Uma boa semana.

Multiolhares disse...

Os tempos eram diferentes para as crianças, mais livres o contacto com o campo com o mar sem medos, hoje esta tudo mais dificil
beijos

Carla disse...

belas fotos e um texto a fazer reviver memórias
beijos

elvira carvalho disse...

Muito interessante o poste que nos dá a conhecer alguns costumes de outras zonas. Na seca do bacalhau, utilizava-se a zorra para trazer o bacalhau das descargas para a câmara
frigorífica
Um abraço e bom Domingo