Num determinado sábado, um grupo de ex-combatentes no ultramar reuniram-se escolhendo desta vez um restaurante próximo de uma pequena aldeia no sopé do Sicó (mais uma vez a serra do Sicó). Comeram, beberam, divertiram-se e depois, já noite, o regresso a suas casas. Estes a que me vou referir, não percorreram mais do que uma dúzia de quilómetros, quando por razões óbvias o condutor, fora de si, travando bruscamente: "Ou saem vocês ou saio eu". Os que queriam continuar a festa pela noite dentro, olharam um para o outro e pensando a mesma coisa, saíram, e o condutor arrancou em grande velocidade, levando os casacos, documentação e dinheiro.
Sem qualquer orientação neste local estranho, dirigiram-se a uma pastelaria, que estava a fechar, beberam mais qualquer coisa e perguntaram onde poderiam encontrar quem os transportasse a Peniche. Indicaram-lhes uma casa a quilómetro e meio, e estes andando mais que essa distância foram a um café onde beberam mais um brandy cada.
Bateram à minha porta e ao abrir vi dois estranhos acompanhados com os meus vizinhos, e um frequentador do café. Num breve instante contaram todo o sucedido e pediram-me que os levasse à sua terra. Alguém por detrás acenava para que não o fizesse, e houve mesmo quem tivesse ligado à GNR, dando conhecimento da situação, o que responderam que não se justificava a deslocação a este local. Eu acreditei logo à partida que não estava na presença de dois malfeitores, talvez pelas suas idades, tive pena deles e pedi à minha esposa que me acompanhasse na viagem. Conversando pelo caminho, um deles pediu para contactar com a família, o que logo me disponibilizei fazendo a chamada em mãos livres e logo ouvimos a conversa. Pediu que os viessem busca a Leiria (metade do caminho) e assim aconteceu. Lastimavam-se do sucedido e comentavam entre eles. "Fulano para mim cortou! Nunca mais!
E quanto a você, fico muito agradecido por ter confiado em nós! Um dia que passar por Peniche, pergunte pelo pai das gémeas, que toda a gente conhece, e eu ofereço-lhe um cabaz de sardinha!"
"Obrigado amigo, não é preciso um cabaz, um quilo é suficiente e não deixarei de o procurar, quando passar por esses lados."
Este foi um caso excepcional, e tenho a certeza que os penichenses continuarão como sempre a ser amigos de toda a gente.
Está a fazer um ano, por esta altura do Natal, que este caso aconteceu.

(O Presépio cá de casa)
Feliz Natal para todos!