sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sicó I

Desço a serra devagar para não cair em alguma ravina. Lá em baixo a bonita aldeia no seu fulgor, preparada para mais uma noite plena de sossego.
As chaminés dos poucos casaréus lançam fumo branco, como um lençol protector que cobre toda a parte ocidental da várzea.
Sigo à frente das oito ovelhas, que vão dando o sustento para a casa, o sol não tarda a esconder-se e faz frio. Como são poucas as cabeças, arranjei um nome para cada uma delas: A Manhosa, a Matreira a Graxa, a Fagundes, a Malhada, a Cota, a Améélia e o chefe Barbabéé.
A Améélia, a mais desdenhada teima em ficar para trás a comer mais umas pontas de urzes, ordeno ao Patego que a vá virar. Trepa num rápido aquele caminho de pedras gastas pelo tempo e segundos depois juntam-se ao pequeno rebanho.
Sinto à distância o cheiro da panela a ferver, que ao lume coze uma entremeada da salgadeira e uma chouriça das maiores, porque o rancho neste momento é maior.
Após ter encurralado o gado e dado o grão à criação, tomado um banho rápido de água morna e sentámo-nos à mesa, junto ao borralho, e à luz da candeiae do candeeiro a petróleo (porque Almártega não tem luz eléctrica), comemos a hortaliça, as batatas com o bom conduto.
Depois de mais um dia de trabalho, é hora de ir para a cama descansar no silêncio da noite, onde apenas à hora certa se ouve o assobio da coruja no velho moinho…

...Continua

5 comentários:

Cata-Vento disse...

Bonito post! Voltei à minha serra e ao meu pastor, o Ti Marcelino que levava o rebanho para as terras do avô. Também lhes punha nomes mas só algumas tinham direito a esse especial tratamento.

Espero a continuação.
Mil beijinhos

Daniel Costa disse...

Jo Ra Tone

Terei passado perto da Serra de Sicó, mas não, posso afirmar. O cenário traçado, o próprio nome das ovelhas, foram familiares no Oeste.

O Eduardino, era uma bebida. Havia um Eduardinho (homem) em Lisboa, com uma certe fama por ser amaricado. Ao tempo era estigma.
Abraço, Daniel

São disse...

POis espero ansiosamente a continuação.
Bom fim de semana.

Multiolhares disse...

ainda hoje a pastoricia tem esses traços, vida bem dura por sinal
beijos

Villager disse...

Esta bela passagem lembrou-me a chegada de Henrique de Souselas a' Quinta de Alvapenha no livro "A Morgadinha dos Canaviais" de Julio Dinis. Para mim, outra viagem muito pessoal ao meu passado. Espero o proximo capitulo.