domingo, 24 de fevereiro de 2008

Avô é Avô

Manhã fatídica aquela, avô,
que te levou.
Dia cinzento de Inverno que arrefece
Muitas das gentes sem contar
Quando te faltou a lenha para o lar.

Com a junta rumámos ao Calvário
E de pé no estrado com a avó serravas
Parte do sobreiro, o estorvado galho.

Num virar de costas no chão te vi.
Um fio de sangue pela tua boca saía
Andaram as vacas! Um ataque!... não sei
Sei que também de morrer fiquei

Pediu água a avó aos gritos
Suas mãos pela face passava
Eu tão assustado estava
Que não sabia o que fazer

Num charco meu coco mergulhei
E molhada a tua cabeça pensei
Na esperança da vida voltar
Mas… quedo continuaste a estar

“Vai chamar alguém Joãozito”
Disse a minha avó num grito

Com todo o tormento sentido
Não sabendo o que era a morte
De todo perdi o norte
Naquele extenso vazio

Descalço em todas as direcções corria
Como cachorrinho abandonado
Onde vivalma não se ouvia
Naquela imensa mata que me engolia

Passava o tempo sem cessar
E a pequena aldeia por encontrar

Um ponto alto consigo alcançar
Para melhor sentir o cheiro do lar

Ao longe telhados avistei
E sem parar corri. Corria
Estafado, mas… enfim cheguei

Nha mãe o avô morreu!

Contava eu sete anitos. Partiu, com as histórias que eu tanto gostaria de ouvir
Passados dois anos, quis Deus que a avó partisse do mesmo lugar “O Calvário”

16 comentários:

Fa menor disse...

Superaste!...

Cátia disse...

Ola João,

Este é um daqueles posts que nos prendem a atenção do principio ao fim. Este tocou-me particularmente por historias que tenho no passado... Aos 10 anos o meu idolo (o meu avô materno), que "vendia saúde" desapareceu em 3 dias; aos 12, fui a terceira pessoa a ver o resultado do suicídio do meu avô paterno. E fui eu que tive que avisar a familia...

A Fa diz que superou este acontecimento. Espero que me permitam que não concorde por completo, mesmo não o conhecendo. Estas coisas deixam marcas tão fundas que não são possíveis de superar... Deixam cicatrizes eternas. O facto de ter feito este post não é sinal disso mesmo?

Obrigada pela partilha...
Abraço

Fa menor disse...

Cátia (e Jo),
com a única palavra do meu comentário quis dizer que este post superou tudo o que até aqui foi escrito neste blog. Ao mesmo tempo quis dizer que uma maneira de se ir superando os acontecimentos é falando neles.
Mas se mais não disse, foi porque a comoção não me o deixou fazer...

luar perdido disse...

Os Avós são parte da nossa vida de meninos. Ficam, mesmo quando partem, haverá sempre um pedaço deles que em nós permanece.
Adorei ler. Calculo o que sentiste na época!

Beijo grande de boa semana

jo ra tone disse...

Olá Cátia,
A vida tem destas coisas
temos a força interior necessária para enfrentar dificuldades.

Um conforto abracinho

jo ra tone disse...

Verdade amiga,Luar Perdido

Os avós são parte de nós
Teria mt histórias para contar.

Abracinho tb boa semana

Filoxera disse...

Bonito.
Não conheci nenhum avô nem nenhuma avó, infelizmente...
Até breve.

quintarantino disse...

Imensa, esta homenagem. Gostei.

Sophiamar disse...

Lindo! Comovente! O meu av� materno ser� inesquec�vel. Tantas hist�rias t�o bem contadas! O paterno tamb�m mas morreu cedo.

Continua, amigo.

Bjinhossssss

Tiago R. Cardoso disse...

Um grande momento e um profunda e comovente homenagem, excelente...

Carla disse...

triste e melancólica esta história que me fez regressar a um passado de dor

multiolhares disse...

Recordações tristes vividas em um passado presente
Beijinhos
luna

Villager disse...

Extremamente comovente. O talento do autor salta do papel (ou ecran) e assalta os sentidos. Gostava muito de poder escrever assim.
Sinceros parabens.

LuzdeLua disse...

Nossa, fiquei aqui pensando que também vi meu pai, da mesma forma, cair ao chão, aos meus pés. E eu que nada entendia de morte. Lindo post, muito bem escrito. Parabéns amigo, você se supera dia após dia.
Deixo-te um abraço com carinho.
Bjs

Cátia disse...

Jo,

Obrigada pela partilha de momentos fantasticos que, embora breves, ficarão para sempre sempre no coração.

um abraço fraterno

Rosa Maria disse...

Bela homenagem aos Avós!
Eu só tive oportunidade de conhecer a minha vó materna e guardo a imagem dela no meu coração.

Beijinhos