sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

"Não deixam governar vida a ninguém"

Diz que comprou e vendeu muitas coisas velhas.
Chegou a ir para os lados da Sertã, correr aquelas aldeias perdidas no meio das serras.
Saía de madrugada com um ajudante e regressava à noite com o carro carregado de tudo quanto era velho. Comprava por baixo custo, não sabendo os mais velhos, o valor dos objectos de que se desfaziam, confiavam nele como incapaz de enganar quem quer que fosse.
Comprava relógios de coluna, de capela e de bolso, alambiques, pratos dos “aranhões e cavalinho” notas e moedas, e diz que caso não os tivesse vendido, não teria lugar para expor tanta coisa.
Mostrou-me uma grande panela de ferro de três pernas feitas de patacos fundidos que não tinham grande valor, e, arranjando-lhe um fundo falso, serviu de cofre durante muitos anos.
Mas o negócio passou a correr mal, os mais novos começaram a ter a noção do valor dos objectos, e não deixavam que os seus familiares os vendessem.
Posto isto, passou a comprar “vinhos podres”.
-Aí é que eu me enchi! Disse ele. Carregava uma camioneta de vinho duas vezes por semana, algum ainda se podia beber, mas como tinha qualquer defeito, era todo para queimar.
Até que um dia os fiscais foram à fábrica e descobrindo muita aguardente sem ser manifestada, trataram imediatamente de encerrar a fábrica.
-“Já não deixam governar a vida a ninguém” – Interrompeu a Ti Maria, muito zangada –-Se tomassem mas era conta dos ladrões que andam p’raí a roubar!
Daqui em diante o Ti Joaquim passou a dedicar-se à sua loja e mercearia, porque entretanto os anos começaram a pesar…

10 comentários:

luar perdido disse...

Pois é "já não deixam governar a vida a ninguém"!!!ten toda a razão a Ti Maria, agora nem trabalho há!!!
Sabe sempre bem vir repousar no teu espaço, trazes o vento dos tempos passados com o toque da saudade, o sorriso da inocencia e a beleza das palavras. Lindo! Obrigada.

Um optimo fim de semana, deixo um beijo de carinho

Sophiamar disse...

A ti Maria e o tio Joaquim a vender vinhos podres? Ganhavam a vida honestamente? Ai,Jo as tuas histórias deixam-me a rir à gargalhada. Este tio Joaquim!!!! Vai escrevendo!

Beijinhossssss

Maria Luar disse...

Histórias de outros tempos que nos encantam.

Abracinho

*
xi
*

jo ra tone disse...

Luar Perdido,
É verdade, já na lltura complicavam a vida às pessoas, ou seja: compravam aquele vinho estragado para para transformação em aguardente, se assim não fosse esse vinho era deitado fora e causar poluição.
Olha é como agora a ASAE com a marcação cerrada que anda a fazer a torto e a direito!

Beijinhos

jo ra tone disse...

Sophiamar,
A Ti Maria e o Ti Joaquim não vendiam vinhos podres
na taberna. Só vendiam vinho de qualidade, para manter o freguêz.

"Podre" era o termo que eles usavam para designar:azedo, com coveiro, toldado, mau gosto etc..
Sobre a taberna postarei brevemente.

Um beijinho

Tiago R. Cardoso disse...

Tinha de se fazer pela vida, tinha de arranjar sempre como se safar, numa altura em que comparado com aquilo que se vê hoje era inocente.

jo ra tone disse...

Claro Tiago,

A inocência da Ti Maria,
ainda hoje é como d'antes.

jo ra tone disse...

Maria Luar,

Gosto de ouvir
histórias do passado
Bjinhos

Carla disse...

a vida faz-se destas histórias deliciosas, afinal os antepassados da ASAE deixaram sementes bem poderosas

multiolhares disse...

Mas também há dos outros que são
Tolhidos nas suas vidas

Beijinhos
luna