sábado, 26 de janeiro de 2008

Médico ou cangalheiro?

O pai do ti Joaquim, cabo cantoneiro, porque eram muitas bocas em casa a comer, resolveu levá-lo para trabalhar com ele. Arranjou-lhe uma farda e atribuiu-lhe um cantão, que ele zelava com todo o empenho. O chefe, quando passava por aqueles lados, ia vendo aquele trabalho tão bem feito que quis conhecer o seu autor. O pai certo dia apresentou-lho, e à pergunta “que idade tens, meu rapaz?” respondeu “quinze anos”! Disse-lhe que não podia continuar naquele cargo porque era ainda muito novo e não era permitido. Com medo de represálias dos seus superiores, o pai mandou-o embora para casa. Cabisbaixo, saiu.

Sempre que o pai fazia as sementeiras, os filhos tinham que o acompanhar nessas tarefas trabalhando todos ao mesmo ritmo, principalmente na cava. O ti Joaquim, o mais velho, sempre que o irmão mais novo se deixava ficar para trás dizia-lhe “trabalha langão”! Mas este, de tanto ouvir aquela expressão, pegando na enxada atirou-a bem para longe dizendo “Vocês um dia ainda me hão-de tirar o chapéu!”.
Seu dito, seu feito. Começou a trabalhar com um médico avençado e com o tempo adquiriu conhecimentos de enfermagem e medicina que lhe permitiram começar a passar receitas aos doentes. Aprendeu a fazer hóstias com farinha de trigo e algumas gotas de quinino, que os doentes tomavam para todas as enfermidades, nomeadamente para as sezões.
As autoridades, logo que tiveram conhecimento da acção deste doutor, chamaram o médico responsável à atenção de que poderia vir a ser detido.
O irmão do ti Joaquim teve que fugir para a Venezuela para não ir parar à cadeia, e por lá ficou a maior parte da sua vida.

O ti Joaquim, exercendo já a profissão de carpinteiro, sempre que morria alguém na freguesia era ele que fazia os caixões e os enterros com a sua carreta.
A primeira coisa a fazer era ir ao pinhal e cortar o pinheiro mais carunchoso, serrá-lo em tábuas que depois seriam forradas com tecido, ficando o caixão pronto em poucas horas.

Concluo: Vão-se os médicos, ficam os cangalheiros!

3 comentários:

Tiago R. Cardoso disse...

Pois, pelos vistos...

Boa historia.

quintarantino disse...

Gostei... mas olhe que há alguns médicos que parecem cangalheiros...

luar perdido disse...

Bom...Entre uns e outros venha o diabo e escolha! Se aos médicos lhes dá para não acertar...

Está deliciosa, como sempre.

Beijo de luar perdido