terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O Medo

Foi um dos sentimentos que mais me marcou na minha infância.

Além do medo de alguns mendigos mais estranhos, era também a Guarda Republicana, os enterros e os contos da minha mãe após a ceia.

Os mendigos, raro era a semana que não apareciam a bater à minha porta 3 ou 4 vezes.
Um sozinho montado no seu burrito, outro a pé guiado pelo seu moço, porque era cego... Lembro-me de um que tinha uma perna de pau, que me fazia bastante dó!
Nalguns o pedido de esmola era acompanhado por uma oração "Por alma de quem lá tem Pai Nosso... Ave-Maria". Outro cantava e tocava com a sua guitarra.
Um dia, não estando a minha mãe em casa, entreguei a carteira do dinheiro ao pobre porque eu não conseguia abri-la. Ele retirando a esmola que era habitual, cinquenta centavos, agradeceu e partiu contente.

Apavorava-me quando avistava a Guarda Republicana. Vindo cada um do lado da estrada pela berma, de espingarda ao ombro, chapéu de aba larga, farda acinzentada com aquelas botas pretas compridas, aquele caminhar cadenciado…
Outras vezes apareciam repentinamente numa mota de berço. Eram o Gungunhana e o Olho Azul… Maus como tudo! Tão maus, que um deles, o Olho Azul, uma vez multou a própria mulher, por esta se encontrar descalça na vila num dia de feira!

Nos enterros eram as cores vermelhas, garridas, das opas, as lanternas e a cruz transportadas pelos homens que formavam o cortejo. Quando os avistava pela janela, escondia-me debaixo da cama, até que se sumissem na distância.

Os contos que a minha mãe contava à noite também eram daqueles que me davam para pensar durante a noite. Eram contos de ladrões, bruxas, diabos e balisomes, tudo de quanto era mau!

Foram tais traumas que ainda hoje não se dissiparam, ou jamais se dissiparão, porque o medo faz parte da vida de cada um, em maior ou menor intensidade.

10 comentários:

quintarantino disse...

Os temores infantis são, quase todos, infundados, mas deixam-nos assim marcas perenes.

Maria Luar disse...

O medo que nos é incutido em crianças teima em permanecer vida fora. O homem e o medo são inseparáveis.

Abraço

multiolhares disse...

O medo faz parte do ser humano
Se não fosse o medo, saiamos por aí
A matar quem se pusesse no nosso caminho,
É esse medo que condiciona as nossas
Acções, mas o que contas é verdade,
Também em menina me asfixiavam
Com medos, e há alguns que dificilmente
Nos livramos

Beijinhos
luna

Aran disse...

Mhmmm... cheira-me coisas do Norte! ;)
Eu em tempos de infância os únicos medos eram das sombras e ruídos quando ia para a cama, após de ver um filme com bolinha vermelha!!! :)
Quem manda a mim ser teimosa... pois é!!! Lembro-me especialmente do título de um dele: "As folhas de platáno"!
De resto... apanhei somente sustos, nada de mais...

Beijinhos e inté...

Rosa Maria disse...

Noutros tempos tudo era diferente. Até a forma como se preparavam as crianças, as histórias, as brincadeiras...
Na minha terra havia imensos miudos gagos porque causa dos sustos que apanhavam.

Beijinhos

LuzdeLua disse...

" O medo é um lugar escuro. Pode ser dissipado com a luz". Dizia meu pai. Nunca entendia direito o que queria dizer. Era só acender a luz???? Hoje sei que essa luz está dentro de nós e fica mais forte a cada passo que ousamos dar.
Lindo texto e obrigada por tua amizade. Juntos somos mais.
Um abraço com carinho.
Bjs

Tiago R. Cardoso disse...

Traumas que nos são colocados por alguns que ainda acreditam que faz parte da tradição avançar com essas historias com as crianças, hoje luto contra algumas mentalidades que tentam impingir algumas dessas historias ao meu filho.

Jade Luz disse...

O MEDO e de que maneira
Só quem essa época não passou.
Isto não foi brincadeira,
Na nossa memória ficou.

Muito bem escrito,pode continuar,
Verdade sem tirar, nem pôr.
Quando não havia nada para brincar
Esta verdade era um terror.

Histórias que davam para traumatizar,
Realmente davam para fugir.
Hoje apenas para recordar
Agora, até chorei a rir...

Obrigado

Um abraço amigo

Sophiamar disse...

O medo também é prudência e é necessário que exista com moderação. No entanto, o medo que nos tolhe por completo a iniciativa é companhia indesejável e alimenta traumas para a vida. Também a mim, tal como a todos nós, me incutiram medos que nunca impediram o meu crescimento harmonioso como pessoa.

Beijinhossss

luar perdido disse...

O medo, está colado à nossa pele como se uma 2ª pele fosse. Pela vida fora teremos que saber lidar com todos os medos e ultrapassa-los ou arriscamo-nos a ter uma vida por metade. Também os meus medos me marcaram em menina. Hoje, mulher, os medos são outros, mas tal como outrora nem sempre lido com eles pelo lado correcto....Faz parte de vida.

Beijo grande