quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

A pena

“- Anda, anda – dizia ele; que ronceira que estás hoje! Olha que não temos esse tempo, que julgas… Então?... Que é isso agora?... Pois já queres mais tinta? Depressa gastaste a que bebeste! Vá, avia-te… Bonito R! Isso não esperava de ti!... Adeus! Agora mais este cabelo!... E sujaste-me todo!... Trapalhona!... Ai, que impertinente que estás!... Adiante!... adiante!... adiante!... Espera, espera… Lá te esqueceu um D!... E agora!... Agora vê se te mexes entre essas duas letras… Assim…Ah!... não toques nos SS… Bem… Continua, mas com tento… Então! Não querem ver que paras outra vez? Ora isto é demais!... Deixa estar que… Oh!
Era um borrão, que caía no meio da página e lhe inutilizava a correspondência quase no seu tempo.
(…)
-Descansa. Hoje não estás nos teus dias. Vem cá tu – dizia para outra Vê lá como te portas! E, olhando fixo para ela:
-Hum!... Abre os bicos… abre… Assim… bem…! Sim senhor!... Bravo!... Ninguém havia de dizer que tu…”

Manuel Quintino e a pena
Júlio Dinis

6 comentários:

quin[tarantino] disse...

Lindo... eu não sei se é por causa do meu nome verdadeiro, mas tenho a mania da tinta permanente ...

jo ra tone disse...

quin[tarantino]:
Deste texto de Júlio Dinis, tiro a ilação de que, quem usa meios de escrita mais modernos, menos hipótese tem de borrar a escrita.
Sabendo pôr os pontos nos iiiiis,"dificilmente deixa cair um borrão no meio da página".
Nada de vacilar, permaneça sempre com essa mesma tinta.

luar perdido disse...

Bem...Eu só escrevo a tinta permanente. Mas os borrões hoje já não são tanto das "penas" e sim de nós próprios que "borramos" muitas vezes "a pintura" com atitudes, palavras e omissões.
Belo pedaço de texto e...Belas as "penas", eu não a dispenso! Moldam muito bem as letras, uma espécie de "oleiros" das palavras.

Beijo doce

Tiago R Cardoso disse...

Engraçado, dadas as tecnologias eu raramente escrevo qualquer coisa à mão... Sinceramente não sei se será engraçado...

multiolhares disse...

outros tempos,em que a caligrafia,era aprendida,
nem a tinta já é o que era,
enfim pelo menos não há borrões

beijinhos
luna

Sophiamar disse...

Gostei da escolha, amijo Jo! Outros tempos, outras formas de escrever.Ainda me lembro da primeira cópia que fiz. Tanto borrão!

Beijinhossss